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MUDAMOS PARA CONTINUAR SENDO OS MESMOS

Tenho uma lacuna na minha formação acadêmica e existencial. Um dia sonho em preenchê-la. Quero e preciso estudar filosofia. O superficial verniz de conhecimento filosófico que tenho, já é suficiente para me dizer que tudo que sei, é que nada sei.

Recentemente ouvindo uma filósofa, encantei-me com a descrição de uma característica marcante do pensamento grego pré-socrático: o “devir”, ou por outras palavras, o vir a ser. Como este conceito me ajudou a solidificar a percepção de que a vida não está pronta, acontece dentro do devir, um constante vir a ser, um ir e vir…. Tudo muda, pois, viver é existir dentro de um fluxo ininterrupto do vir a ser. Um eterno devir!

O devir é um convite a nos reinventar, a perceber que já não somos mais os mesmos quando iniciamos uma jornada. Essas mudanças abrem novos ciclos que podem inclusive requerer que mudemos nossa marca, nossa logo, nosso slogan, nosso nome…  O envelope antigo já não dá conta de conter as novas nuances da carta dentro dele, o vinho adquire diferentes sabores e textura, por isso outros devem ser os odres a contê-lo.

Temos um novo nome: Peregrinus. Um peregrino é alguém que caminha uma jornada carregando a cada passo uma utopia. Em tempo: utopia não é algo impossível de se realizar, mas aquilo que já está presente, porém, não em toda sua plenitude. Como peregrinos carregamos a utopia de fazermos da nossa vida uma constante jornada de formação para sermos o tipo de pessoa que Jesus foi, isto no contexto de relacionamentos enraizados em amor, formadores de uma comunidade que peregrina em unidade sem perder nunca o charme da diversidade. Peregrinus é o que somos. É assim que passamos a nos denominar.

Dentro da bíblia da Marcia, a mulher extraordinária com quem divido a existência, está uma fotografia do início do nosso casamento. Ambos bem novinhos. Eu ainda tinha fartos cabelos que o devir, vem fazendo desaparecer fio a fio. Ontem olhei esta imagem e as lágrimas me vieram aos olhos. Em certo sentido, não somos mais o menino e a menina de outrora, mas por um outro lado, ainda somos e continuaremos a ser em parte, aquilo que fomos. É assim mesmo, numa longa jornada, mudamos e temos que mudar se quisermos continuar a ser os mesmos. Um dia nos chamamos Renovare, hoje Peregrinus. Mudamos sim, mas paradoxalmente, em muitos aspectos, continuamos sendo os mesmos: peregrinos construindo um movimento de formação espiritual cristã, orgânico, relacional, comunitário!

Eduardo Pedreira
Um dos líderes do Peregrinus